
Em suas lembranças, a jornalista e agricultora urbana Marcia Chiad vê a mãe Iracy colhendo acerola, enfrentando a coceira, juntando muitas frutinhas e separando as maduras das de vez. Também vê o pai Mariano colhendo e torrando café, ou fazendo cortina de fumaça durante toda a noite para proteger a planta das geadas que, naqueles tempos, costumam visitar Campo Grande. São fragmentos do cotidiano na chácara da família à época da infância e adolescência da jornalista.

Essas memórias se misturam ao aroma forte e quente do café e ao gosto agridoce da acerola. As duas plantas se destacam no quintal da jornalista por serem parte da sua história – nasceram de mudas trazidas da chácara. Embora sejam normalmente considerados arbustos, os pés de café e de acerola são alçados no aconchego das recordações da Márcia a árvores de sua meninice. As do seu quintal reavivam o distante – e tão próximo – tempo da chácara. Tornam presentes Mariano e Iracy, falecidos em 1995 e 2019, respectivamente.
Na época em que começou a ser cultivada pelos pais de Marcia, a acerola era associada, em terras sul-mato-grossenses, à cereja. “Era um tempo em que acerola ainda não era muito conhecida aqui. As pessoas a chamavam de cereja. Era cereja-das-antilhas. Meu pai trouxe uma muda de fora, e começou a plantar. Ele fornecia os mercados aqui. Era uma novidade. E ele gostava muito”, lembra-se.
“Tanto o pé de café quanto o de acerola trazem lembranças muito intensas da minha infância”, conta a agricultora, dando destaque ao café, que começou a ser cultivado por seu pai quando ela tinha cerca de cinco anos. “Foi uma época muito boa da minha vida”, recorda-se. “Quando eu estou perto do pé de café e do pé de acerola, tenho muitas lembranças do meu pai e da minha mãe. É uma memória afetiva que a gente guarda. Eu acredito que a gente guarda essa memória pra sempre”.