
Controle excessivo, ofensas, apelidos humilhantes e exposição nas redes sociais. Essas são algumas situações observadas no cotidiano escolar pela professora Stefânia dos Santos Feliciano, que atualmente trabalha como coordenadora pedagógica em uma escola pública de Campo Grande. Os problemas identificados pela professora revelam diferentes formas de relacionamentos abusivos entre adolescentes, frequentemente normalizados como práticas comuns de amizades e namoros.
O assunto recebe atenção especial às vésperas do Dia dos Namorados, devido à campanha aprovada há seis anos pela Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALEMS): a Semana de Conscientização e Combate ao Relacionamento Abusivo, instituída pela Lei Estadual 5.579/2020 . Realizada anualmente na semana que antecede o 12 de Junho, a iniciativa integra o calendário oficial do Estado e tem como objetivo promover a reflexão, o debate e ações educativas sobre os impactos dos relacionamentos abusivos aos envolvidos, suas famílias e toda a sociedade.
No debate público sobre relacionamentos abusivos, situações que ocorrem entre adolescentes têm, em geral, menos visibilidade. No entanto, características próprias dessa fase da vida, como intensidade emocional e construção da identidade, tornam a discussão sobre relações nocivas na adolescência importante e necessária. E há um componente que, no cenário atual, intensifica o problema — a internet.
O que diz a Psicologia

Além da bagagem teórica e da experiência profissional, há um componente no currículo da psicóloga e assistente social Ana Renata Scucuglia que enriquece sua reflexão sobre o tema — ela é mãe de dois adolescentes. Como psicóloga e mãe, Ana Renata ressalta a importância dos vínculos com os pais antes de tratar sobre relacionamento abusivo.
“É na relação com as figuras parentais que o adolescente aprende o que é amor, o que é cuidado, o que pode esperar do outro e o que ele merece”, explica a psicóloga. “Quando esse vínculo é marcado por ausência emocional, crítica excessiva ou falta de espaço para a vulnerabilidade, ele chega à vida afetiva com esquemas que o tornam mais suscetível a aceitar o que não deveria”, alerta.
Por estar em uma fase caracterizada por descobertas e novas experiências, o adolescente pode não perceber que está vivendo uma relação abusiva. “Entre os jovens, o abuso frequentemente aparece disfarçado de ciúme excessivo, controle das amizades, monitoramento pelo celular e humilhações normalizadas como ‘brincadeira’”, nota Ana Renata. “E como têm menos repertório afetivo para comparação e, muitas vezes, não têm em casa um espaço seguro para reconhecer, falar, expressar o que estão vivendo, acabam não identificando o abuso”, acrescenta.

O psicólogo Adriano Luiz Pardo, que também é formado em Filosofia, aponta uma característica da adolescência que pode aumentar a vulnerabilidade a relacionamentos abusivos: a intensidade com que experiências e emoções são vividas. “A adolescência é uma fase marcada principalmente pela intensidade. Tudo é vivido com grande intensidade emocional. Também as relações sofrem desta intensidade tanto para o positivo quanto para o negativo”, observa.
Essa característica se soma a outro aspecto da adolescência: o processo de construção da identidade. “Sendo esta fase também de construção de identidade, acaba muitas vezes sendo um período movediço. As relações tanto amorosas como de amizades são um terreno fértil para novas descobertas e estão sujeitas a influências e inseguranças”, explica.
Pardo chama à atenção a seis sinais de alerta para relacionamentos abusivos na adolescência: controle excessivo, confundido com “cuidado”; autoestima afetada por críticas constantes; sensação contínua de culpa; medo frequente da reação e opinião dos outros; confusão mental e falta de opiniões próprias; e isolamento social.
Os perigos das redes
Os dois especialistas frisam que a internet pode amplificar e facilitar dinâmicas de abuso e controle. “As redes sociais aumentaram o alcance do controle e da própria violência”, nota Ana Renata. “O que antes ficava dentro de casa, hoje pode acontecer 24 horas por dia, através de monitoramento, cobranças por tempo de resposta, humilhações públicas em comentários ou grupos, e o chamado abuso virtual, que inclui exposição de imagens íntimas e perseguição digital”, alerta.

As redes sociais também podem suscitar ou agravar comportamentos abusivos nos jovens. Há ambientes virtuais que fomentam o ódio e a violência, influenciando o pensamento e as ações dos jovens, segundo observa Adriano Luiz Pardo. “Grupos como Red Pill fazem uma pregação extensiva e maciça de relações abusivas centradas no poder, no controle e principalmente na objetificação das mulheres”, exemplifica. “As conquistas femininas acabaram por colocar em xeque aquilo que era privilégio dos homens. Muitos infelizmente, estão incomodados com esta mudança gerando uma reação de ódio e desprezo”, completa.
Confira as entrevistas na íntegra, clicando aqui (psicóloga Ana Renata Scucuglia) e aqui (psicólogo Adriano Luiz Pardo)
Sinais de abuso no cotidiano escolar
As análises dos psicólogos se materializam em um dos principais espaços de convivência entre adolescentes: a escola.
Há 11 anos na Educação e há dois anos e meio na coordenação pedagógica, a professora Stefânia conhece bem a realidade de relações de abuso no cotidiano dos adolescentes. Segundo ela, tentativas de dominação e controle se apresentam, inicialmente, nas falas, como “brincadeiras”, que são, na verdade, ofensas. “Surgem, por exemplo, apelidos devido à aparência física ou porque o estudante tem uma família mais pobre que a do outro”, pontua.

Os relacionamentos amorosos também exigem atenção. Stefânia conta que já acompanhou casos em que um dos parceiros tentava controlar as amizades do outro, influenciando suas escolhas e seu convívio dentro da escola. “Já observei casos de casais em que um pressionava o estudante para que não saísse, não se envolvesse com colegas e se afastasse na sala de aula”, afirma. Ela ressalta que o isolamento gradual dos amigos e a necessidade de prestar contas constantemente são sinais que precisam ser observados por educadores e familiares.
Além dos conflitos entre colegas e namorados, a coordenadora relata situações envolvendo violência doméstica e familiar. “Tivemos episódios em que uma simples convocação dos responsáveis para resolver um problema rotineiro na escola desencadeou em agressões severas em casa. Ao tomarmos conhecimento que um aluno é espancado, acionamos imediatamente o Conselho Tutelar”, conta.
A professora também já identificou manifestações de relacionamentos abusivos nas redes sociais, como compartilhamento de imagens sem consentimento e cyberbullying após o rompimento de amizades ou namoros. “São situações que acontecem no dia a dia da escola”, resume Stefânia. “Às vezes não percebemos de imediato, mas existe uma opressão que afeta profundamente a vida desses jovens”, finaliza.
Violência emocional envolve 95% dos adolescentes
Estudos mostram a alta frequência de relacionamentos abusivos entre os adolescentes. Pesquisa conjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Escola de Saúde Pública de Harvard, realizada com 539 estudantes do ensino médio, de 15 a 19 anos, mostrou que 95% dos participantes já sofreram ou praticaram violência emocional no namoro.
Outro levantamento, realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) com 3.205 adolescentes de dez capitais brasileiras, identificou o ciúme e a suspeita de infidelidade como fatores frequentemente associados a conflitos e agressões no namoro. Segundo a pesquisa, muitos adolescentes ainda enxergam essas situações como justificativas para atos violentos, evidenciando a influência de normas sociais e estereótipos de gênero que contribuem para a naturalização da violência nas relações afetivas.
Livro infantil da ALEMS aborda saúde mental
A prevenção dos impactos emocionais causados por situações de violência e abuso também passa pelo fortalecimento da saúde mental desde a infância. Pensando nisso, a Gerência de Site e Mídias Sociais da Secretaria de Comunicação Institucional da ALEMS produziu o livro digital “Para onde vai o buraco quando o tatu fica feliz?” (clique na imagem para acessar o livro). Na história, o protagonista, o tatu Feliz, perde a alegria após enfrentar acontecimentos difíceis e passa a apresentar sinais de sofrimento emocional.
O livro integra a coleção “Cidadania é o bicho”, que usa como personagens animais do Pantanal para tratar de temas sérios, como violência doméstica, abuso sexual de crianças, respeito aos idosos, igualdade de gênero, ações antirracistas e conscientização sobre o autismo.
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